Sem espaço para sonhar: Os jovens e o Problema da Habitação
Sem espaço para sonhar: Os Jovens e o Problema da Habitação
A crise habitacional: um obstáculo à independência
A crise habitacional em Portugal é uma das maiores preocupações para os jovens que procuram iniciar a sua vida independente. Com o aumento dos preços das rendas e a escassez de oferta, muitos encontram-se numa situação de frustração.
Este planeamento a longo prazo tornou-se comum entre os jovens que adiam grandes decisões, como a criação de uma família, devido à instabilidade habitacional.
Margarida, por outro lado, conseguiu recentemente comprar a sua primeira casa, mas reconhece que para muitos jovens, esta conquista está cada vez mais distante. Já Valério Dias, com 50 anos, que vive numa habitação própria e não planeia mudar, explica: “Atualmente não, porque a minha casa já está feita, não tenciono mudar de casa.” A estabilidade habitacional que ele desfruta é, para muitos jovens, uma realidade ainda fora de alcance.
"Vou precisar de muito mais tempo a poupar para mais tarde poder arrendar ou comprar. Gostava de criar um fundo de emergência para conseguir mudar de casa com mais segurança.", Pedro Barciela, 22 anos
Viver sozinho ou acompanhado? A escolha ou a falta dela.
A decisão de viver sozinho ou acompanhado muitas vezes não depende apenas da vontade dos jovens, mas de fatores financeiros e de apoio familiar. Barciela, que vive num apartamento arrendado pelo Estado através de um programa social, menciona: “Vivo acompanhado. É um programa social do Estado… não é por escolha, gostaria de viver sozinho ou com a minha namorada, mas também não trabalho e sou estudante.”
"Vivo com a minha tia e o marido dela. Vim para Portugal a convite dela, se não tivesse o convite, não conseguiria manter-me aqui." - Jennifer, estudante de 22 anos.
Margarida, que vive acompanhada pela esposa, revela que a decisão foi uma escolha consciente, mas que a experiência de viver fora de Portugal também lhe mostrou as limitações e dificuldades de arrendamento em outros países. Relata a sua vivência em França, onde enfrentou situações precárias: “Quando estive em França vivi em vários apartamentos nos arredores de Paris. Num deles, vivi com um casal e dormia num beliche na sala, no meio do fumo. Depois vivi em 16m², onde pagava 250 euros, e quando recebíamos visitas, dormíamos todos na mesma cama.”
As dificuldades do mercado de arrendamento: preços e pouca oferta
A procura de uma casa é um processo que, para muitos jovens, se torna frustrante devido aos elevados valores de arrendamento e à escassez de oferta. Barciela partilha a sua experiência ao procurar habitação em zonas próximas ao São João: “Muito caro e por vezes só para arrendar T0 ou quartos por 400 euros.” Jennifer, que também já pesquisou opções de alojamento, observa que “os valores elevados das residências estudantis e apartamentos” representam uma grande barreira. Para Margarida, que já viveu em França, a experiência foi ainda mais complexa. Ela menciona que, como não era cidadã francesa, enfrentou dificuldades adicionais.
“Apesar de ter um contrato efetivo e ganhar acima do salário mínimo, o facto de ser jovem e estrangeira fazia com que dessem prioridade a franceses.”Esta discriminação e os elevados preços também são obstáculos comuns para jovens que tentam estabelecer-se fora do país.
Valério, que optou por comprar uma casa em vez de arrendar, destaca as dificuldades que enfrentou para encontrar um terreno acessível: “Na altura, foi difícil encontrar um terreno suficientemente grande e a um preço acessível.” Hoje, a construção da sua casa teria um custo muito superior, o que torna a aquisição de habitação ainda mais complexa para os jovens de hoje.
A mobilidade e a procura por áreas mais acessíveis
Para alguns jovens, a ideia de se mudarem para áreas mais acessíveis é uma possibilidade a considerar. Barciela partilha: “Sim, mas se fosse para sair, gostaria de ir para o interior e não para uma cidade grande. Gostava de experimentar algo diferente de uma rotina de cidade.” Este desejo por uma vida mais tranquila e acessível fora dos grandes centros urbanos reflete-se também na experiência de outros jovens.
Margarida, ao ponderar entre Portugal e o estrangeiro, considera que, se tivesse a oportunidade de adquirir uma casa no exterior com menos dificuldades financeiras, optaria por viver fora do país: “Se tivesse de escolher entre pagar um crédito de imensos anos aqui e, no estrangeiro, conseguir comprar com as poupanças que iria acumular, preferia viver fora.”
Valério pondera também a possibilidade de uma mudança de região, considerando aspectos climáticos e a flexibilidade do trabalho remoto: “Com a possibilidade de trabalhar remotamente, a mudança para uma zona mais longe do trabalho é uma opção viável, desde que se chegue a um acordo com a empresa.”
O programa ‘Mais Habitação’ será uma solução eficaz?
Entre os jovens, a opinião sobre o programa “Mais Habitação” e outras medidas de incentivo ao arrendamento é mista. Barciela vê o programa com bons olhos, mas alerta para a disparidade entre a oferta e a procura: “Definitivamente é um bom programa no geral. O problema é que Portugal tem uma quantidade grande de pessoas cá dentro para se sustentar.” Ele acredita que, enquanto a procura superar a oferta, as dificuldades continuarão. Jennifer considera o programa uma boa iniciativa, mas destaca que o país ainda enfrenta problemas económicos que agravam a crise habitacional.
“Portugal ainda sofre com questões económicas que acabam por influenciar nessa área também.”
Margarida, por outro lado, admite não estar ciente do programa, refletindo a possível falta de divulgação ou relevância da medida entre os jovens. Para Valério, as medidas propostas pelo programa são um passo positivo, mas insuficiente: “A meu ver, a crise é devida a dois fatores: a falta de habitações novas e o preço inflacionado pela procura dos estrangeiros que investem em Portugal e pelo aumento do turismo, que coloca o arrendamento para turistas como prioridade.”
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