Visões de Além-fronteiras: Jornalismo e Fotografia na Lente dos Especialistas - Parte II

The Silver Type

THE SILVER TYPE

Página 1, Segunda-feira, Setembro 23, 2024

Visões de Além-fronteiras: Jornalismo e Fotografia na Lente dos Especialistas

Imagem do evento

O Contexto Cultural Brasileiro e as Comparações com Portugal

Igor Savenhago, jornalista brasileiro, mestre e doutor em Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), está atualmente na Universidade Fernando Pessoa, em Portugal, para um período de investigação de pós-doutoramento. Propõe-se a realizar uma pesquisa sobre o envelhecimento dos jornalistas acima dos 60 anos e a sua adaptação às novas tecnologias. Na sua intervenção, Savenhago abordou as complexidades do cenário jornalístico no Brasil, as suas comparações com Portugal e explicou as suas motivações para estudar no exterior.

Imagem de Igor apresentando

Ao iniciar a sua apresentação, Igor Savenhago destacou as diferenças culturais e sociais entre Brasil e Portugal. Para ele, ao viver em Portugal pela primeira vez, torna-se inevitável fazer comparações com o Brasil, dada a extensão e a diversidade do seu país de origem. Segundo ele, "não é fácil falar do Brasil", pois trata-se de um "país continental, o quinto maior em termos territoriais, com uma população de 220 milhões de habitantes". Tal diversidade geográfica e populacional reflete-se diretamente na cultura nacional, tornando difícil definir uma única identidade cultural brasileira. Regiões do sul possuem uma herança europeia, com uma população significativa de origem alemã, italiana, portuguesa e espanhola, enquanto o norte e o nordeste apresentam influências amazónicas e indígenas, aparentando ser "outros países". Enquanto em Portugal os 12 milhões de habitantes estão mais concentrados, o Brasil apresenta uma enorme disparidade entre regiões. Igor refere-se, por exemplo, à cidade de São Paulo, que, apesar de não ser a capital do país, é a maior cidade e um dos principais polos económicos e culturais. "O estado de São Paulo concentra 45 milhões de pessoas, ou seja, um quarto da população brasileira", disse Savenhago. Comparativamente, mencionou que o estado de São Paulo possui o dobro de municípios de Portugal, com um total de 645. Em outras partes do país, como a Amazónia, a realidade é totalmente distinta, com a maioria dos municípios cobertos por floresta, apresentando uma densidade populacional muito menor e uma cultura completamente diversa apesar dos 52 municípios serem maiores do que o estado de São Paulo.

"Atualmente temos uma sopa de letras no Brasil, existem mais de 60 partidos políticos mas com ideologias muito semelhantes. Na realidade temos de facto apenas 2 ou 3 correntes ideológicas no Brasil."

Jornalismo no Brasil: Desafios Históricos e Estrutura Atual

Imagem de Inês e Noemi discutindo

Ao abordar a comunicação social no Brasil, Igor destacou que o jornalismo no país sempre enfrentou grandes desafios, sendo altamente influenciado por fatores políticos e económicos ao longo da história. Descreveu como os grandes meios de comunicação, especialmente durante o período da ditadura militar (1964-1985), atuaram como apoiadores do regime autoritário. "A Rede Globo, por exemplo, surgiu em 1965, já com o suporte estrutural do governo militar para promover a sua agenda", relembrou. O mesmo ocorreu com grandes jornais como a Folha de São Paulo e a Revista Veja, pertencente à Editora Abril, que aderiram à linha ideológica do governo da época. Com o fim do regime militar, o Brasil iniciou um processo de democratização, que, segundo Igor, é falho até os dias de hoje, uma vez que muitos dos resquícios daquele período permanecem presentes na estrutura social e política do país. Como exemplo, mencionou a eleição de Jair Bolsonaro, representante da extrema-direita, que, segundo ele, traz de volta uma ideologia similar à do governo militar. "A eleição de Bolsonaro polarizou o país entre uma ideologia de extrema-direita e outra de centro-esquerda, representada por Lula da Silva, afirmou. No contexto da comunicação mediática, essa polarização também se reflete. Igor explicou que muitos dos grandes meios de comunicação, anteriormente alinhados com o governo militar, simpatizaram com Bolsonaro. Além disso, o governo Bolsonaro foi responsável por financiar uma vasta estrutura de desinformação, criando e fortalecendo sites especializados em notícias falsas, deslegitimando a atuação jornalística tradicional e promovendo a desconfiança pública. Enquanto os pequenos meios de comunicação, que dependem do financiamento local, acabaram por se alinhar com os interesses políticos dos municípios e partidos locais.

Igor apontou ainda para o conceito de desertos de informação. Nesses locais, não há jornais ou meios de comunicação, resultando numa população que consome apenas informações das grandes corporações mediáticas. Para Igor, uma das soluções possíveis para este cenário seria o investimento na comunicação regional, procurando fortalecer pequenos jornais e emissoras locais, que possam fornecer notícias mais contextualizadas e próximas da realidade dos seus públicos. É neste contexto que ele menciona a sua estadia em Portugal, visando aprender com os modelos locais que têm funcionado e adaptar esses exemplos para a realidade brasileira.
Impressões sobre Portugal: Cultura, Património e Jornalismo

Durante a sua intervenção, Igor Savenhago também falou sobre as suas primeiras impressões sobre Portugal, um país que, segundo ele, oferece uma maior segurança e qualidade de vida comparado ao Brasil. Ele mencionou que muitos brasileiros da classe média têm procurado Portugal à procura de melhores condições de vida ou como uma fuga da violência e desigualdade social que caracteriza o Brasil.

Jornalista entrevistando um cidadão

Ele destacou a valorização cultural e patrimonial em Portugal como um dos maiores choques culturais que teve ao chegar ao país. A diferença no cuidado histórico e na preservação do patrimônio cultural é evidente. Savenhago comparou, por exemplo, as construções históricas em São Luís do Maranhão, no Brasil, muitas das quais se encontram abandonadas e em ruínas, enquanto em Portugal observa-se uma preocupação constante com a preservação do seu património. Outro ponto mencionado foi a organização política e social em Portugal, que, segundo ele, contrasta bastante com a realidade brasileira marcada por desigualdades regionais profundas, especialmente no campo da educação. Em relação ao jornalismo, Igor destaca que Portugal apresenta características que podem servir de modelo para o desenvolvimento do jornalismo local no Brasil, sublinhando a importância de um sistema educacional uniforme, ao contrário do Brasil, onde as diferenças regionais afetam a qualidade do ensino. "Em Portugal, existe uma diretriz única dada pelo Estado. No Brasil, o ensino é municipalizado, o que gera grandes desigualdades regionais na qualidade do sistema educativo", afirmou.

Jornalismo no Brasil

Questionado sobre o início da sua paixão pelo jornalismo pela aluna Inês do Curso de Ciência Política, Igor Savenhago revelou que desde criança sempre teve um interesse pela comunicação. Lembrou as brincadeiras que tinha com os primos, nas quais usava gravadores e microfones para "narrar" acontecimentos e divertia-se sendo o locutor, ao invés de participar das atividades. Ao ingressar no ensino superior, a sua afinidade com as disciplinas de ciências humanas, como História, Geografia e Língua Portuguesa, reforçou o seu interesse pelo jornalismo. Formou-se em 2003 e trabalhou em diversos tipos de meios de comunicação, como televisão, rádio, jornais impressos e revistas. Em 2009, começou a sua trajetória interdisciplinar ao realizar o mestrado em Ciência, Tecnologia e Sociedade. Essa escolha reflete o seu desejo de não se especializar apenas num campo, mas de compreender os movimentos que moldam a sociedade e como as tecnologias afetam a vida das pessoas. No seu doutoramento e no atual pós-doutoramento, Savenhago explora como o avanço tecnológico, particularmente a transição dos meios analógicos para os digitais, impactou o jornalismo e, mais especificamente, os jornalistas mais velhos que viveram ambos os contextos.

"A cidade onde eu vivo, Ribeirão Preto, tem 700 mil habitantes o que o torna maior que lisboa e temos um teatro mas não temos nenhum cinema."

O aluno Pedro questionou Igor sobre o maior choque cultural que experimentou ao mudar-se do Brasil para Portugal. Igor reiterou que o que mais o impressionou foi "a valorização histórica e cultural do país". Afirmou que a presença constante da arte em cada canto do Porto foi uma surpresa agradável, visto que em muitas cidades brasileiras a cultura não recebe o mesmo estímulo. Outra questão levantada por Jenifer, uma aluna originária do Rio de Janeiro, foi sobre o papel dos grandes meios de comunicação na ausência de desenvolvimento dos jornais locais e na propagação de certas ideologias. Igor reforçou que a comunicação brasileira está nas mãos de um número restrito de famílias, o que cria um monopólio que, por sua vez, limita a diversidade de vozes e perspetivas. "Essa concentração dos meios de comunicação faz com que haja uma uniformização na maneira como os assuntos são tratados, excluindo as minorias", explicou. Ainda afirmou que o Folheto de São Paulo foi o primeiro jornal a aceitar jornalistas não profissionais, Brasil está numa situação onde o curso de jornalismo não é regulamentada. Não é necessário ter formação para exercer essa profissão. Finalmente, uma pergunta sobre a influência da Inteligência Artificial (IA) no futuro do jornalismo foi respondida por Igor com cautela. "A IA já está a ser usada em testes rápidos e para responder a algoritmos. No entanto, será essencial que os jornalistas se adaptem e mostrem a importância do trabalho humano, priorizando o diálogo e a análise crítica, algo que a IA ainda não consegue replicar da mesma forma."

Estrela Dias

Aluna e Autora de The Silver Type

Publicado em THE SILVER TYPE, Segunda-feira, Setembro 23, 2024

Comentários